Costuma-se dizer que Deus morreu na Idade Moderna. Uma era histórica em que se projetou uma visão de mundo que previa a progressiva diminuição dos apegos religiosos da humanidade, e uma crescente substituição por visões de mundo guiadas pelo saber cientificista. Enganam-se os que dizem que Nietzsche matou Deus. Trata-se de uma interpretação equivocada dos dizeres de Zaratustra, que anunciou uma morte já dada.
Após a descida das montanhas, indo-se a ter com os homens, o viandante encontrou no caminho um velho santo de cabelos brancos, que meditou:
“Este viandante não me é estranho: passou por aqui há anos. Chamava−se Zaratustra, mas mudou. Nesse tempo levava as suas cinzas para a montanha. Quererá levar hoje o seu fogo para os vales? Não temerá o castigo que se reserva aos incendiários? Sim; reconheço Zaratustra.”
No encontro, os dois mantiveram um diálogo, no qual o velho santo tentou dissuadir a invectiva de Zaratustra de sair do bosque e ir ter com os homens. Mas Zaratustra, resoluto, riu-se (e o velho santo também) e não lhe deu ouvidos, refletindo consigo mesmo:
“Separam−se um do outro, o velho e o homem, rindo como riem duas criaturas. Zaratustra, porém, ao ficar sozinho falou assim ao seu coração: ‘Será possível que este santo ancião ainda não ouviu no seu bosque que Deus já morreu?’ “
Zaratustra traz o anúncio do super(ado)-homem. Explico a expressão que uso, pois difere do que consta na tradição. É que se costuma traduzir a expressão alemã Übermensch como “super-homem”, ou “além-homem”. Certa vez me ocorreu a ideia de rearranjar a expressão (não obstante um grande tradutor de Nietzsche, Dr. Roberto Machado, prefira a expressão “super-homem”), criando uma flexão que engloba as duas acepções: super + além, no sentido de superação = super(ado)-homem.
Mas, enfim, esqueçamos essa discussão particular de tradutores, pois para mim este já é um debate superado, que eu trouxe agora apenas para somar aos conhecimentos dos nossos leitores.
Uma piadinha que circula por aí diz o seguinte: “Nietzsche matou Deus; e Deus matou Nietzsche.” Ainda que a recíproca seja verdadeira (e não sei se é), não foi Nietzsche quem matou Deus. Esta é uma sentença tola reproduzida com a velocidade da luz na internet.
O algoz de Deus é o racionalismo moderno-Iluminista, que ausentou Deus do pensamento. Nietzsche é quem constata essa morte – como derrocada da cultura e decadência moral do Ocidente cristão.
É bom resolver esse mal entendido pelo seguinte: Zaratustra simplesmente anuncia aquele que é um dos projetos da razão Moderna (e a morte de Deus já fora constatada desde sua obra A Gaia Ciência): as Luzes tornariam obsoletas a fé e as religiões nas idiossincrasias do pensamento Ocidental, além de resolver positivamente os problemas da fome, do desemprego, e de outros efeitos colaterais das revoluções industriais.
Esses eram os sonhos da modernidade Iluminada. Mas tal projeto falhou. O progresso científico cavou buracos profundos na alma dos séculos. O progresso moral parece não ter atendido às teleologias de Marx, na introdução de O Capital.
A Razão Moderna prestou-se (em seu caráter instrumental), por outro lado, à criação de domínios neocolonialistas (que racharam a África em fatias com réguas de gabinete e semearam guerras, como as do Ópio, na Ásia); além das guerras mundiais e das crises econômicas; inventou submarinos e bombas atômicas, medos e esquizofrenias, e toda uma série de mal estar na civilização (para me apropriar expressivamente do texto homônimo de Freud).
As Luzes se apagaram…
A aurora do século XXI surgiu no horizonte trazendo as cores do medo do terrorismo internacional (muitas vezes utilizado como mero discurso da política internacional para justificar guerras, como a do Afeganistão e a do Iraque) e as manchas de sangue dos enfrentamentos entre judeus israelenses e palestinos islâmicos.
As Luzes se apagaram e as religiões parecem estar voltando com muita força ao teatro epistemológico das idiossincrasias.
Com este panorama arquitetado, chego no ponto x deste post. Se Deus morreu durante o século do positivismo, ele ressuscitou nos últimos tempos, e, segundo estimativas, a tendência é que as religiões cresçam ainda mais nas décadas que virão.
José Saramago (em texto intitulado Ateus, veiculado no seu Caderno) afirma que o mundo seria mais pacífico se fôssemos todos ateus. Se o Nobel de Literatura estiver correto, um dado estatístico desanimador (“desanimador” para o sentido que Saramago coloca) invadiu as páginas do jornal Clarín no último dia 14 de agosto.
Eu que não sou ateu, mas agnóstico (pois me reservo a não acreditar que nossos conhecimentos sejam suficientes para findar essas discussões metafísicas sobre a existência ou não de deus – penso, inclusive, ser mais honesto acreditar na existência de deuses, mesmo que apenas existam no imaginário coletivo como “funções sociais”), restrinjo-me a relatar as seguintes perspectivas.
Segundo matéria de Sérgio Rubin, do Clarín, o grupo La Vie e o Le Monderealizaram um estudo “cuidadoso” com as seguintes informações:
“O Atlas das Religiões projeta o crescimento das principais religiões até 2050. O cristianismo passará dos 1,75 bilhões de pessoas em 1990, pra 3 bilhões, continuando como a primeira religião. Os muçulmanos, que eram 962 milhões e hoje são 1,2 bilhões, serão os que mais crescerão proporcionalmente e alcançarão 2,2 bilhões. Os hindus, 686 milhões em 1990, serão 1,2 bilhões e os budistas passarão de 325 milhões a 425. Os judeus de 13 a 17 milhões.
O cristianismo muda no mapa mundial, por seu deslocamento ao sul. Europa por séculos sua grande base, hoje representa 25% (com 280 milhões de católicos, 100 milhões de evangélicos e 150 milhões de ortodoxos). Em 2050 não serão mais que 16%. A grande maioria dos cristãos está no novo mundo. São 275 milhões no EUA/Canadá e 530 milhões na área latina. Os evangélicos crescem espetacularmente e já são 65 milhões.
O Islã é a comunidade religiosa que mais se expande. Oliver Roy diz que o mundo muçulmano já não é percebido como um território com fronteiras a serem defendidas, mas como uma comunidade mundial. A maioria dos muçulmanos não vive no Oriente Médio, mas na Ásia (dois terços). Quatro países têm metade dos islâmicos: Indonésia (o maior país muçulmano), Paquistão, Índia e Bangladesh. Na África, 1/3 dos habitantes são muçulmanos (46% na África Ocidental, 30% na Oriental e uns 2% na Central e Austral). Na Europa vivem 16 milhões de muçulmanos e no EUA, 4 milhões.
Na Índia 83% da população professa o hinduísmo. O judaísmo com 14 milhões de pessoas enfrenta problemas por sua lei dizer que é judeu o filho de mãe judia. Os casamentos mistos explicam isso. Rússia e Vietnam (vive uma explosão de religiosidade) são outros exemplos de crescimento da religião.”
De acordo com Saramago, o teólogo suíço Hans Küng sentenciou que “As religiões nunca serviram para aproximar os seres humanos uns dos outros.”
Como o ateísmo caminha no sentido de findar com as intolerâncias religiosas (já que se direciona ao desapego às religiões), os dados mostrados acima são muito desanimadores.
Caso fôssemos todos ateus, nas palavras do Nobel de Literatura: “… ficaríamos livres dessa ideia infantil e ridícula de crer que o nosso deus é o melhor de quantos deuses andam por aí e de que o paraíso que nos espera é um hotel de cinco estrelas. E mais, creio que reinventaríamos a filosofia.”
Para além de qualquer desejo de superação do ser humano tal como se nos apresenta desde eras passadas (intolerante, mesquinho, pretensioso, medievo e ignorante) o crescimento das religiões anunciado construirá uma Torre de Babel das crenças metafísicas (onde ninguém se entende) que conduzirá a humanidade à sua ruína.
E quem saberá em qual mar desaguará essa coisa estranha cheia de devaneios e delírios chamada “sociedade humana”?…



